Uma saudade dos mil anos que passamos, ou das três semanas. A loucura de
gostar tanto pra tão pouco ou simplesmente a loucura de tanto acabar
assim. Fora tudo o que guardei de você, me restou a consideração que
você guardou por mim. Sua ligação depois, quando me encontra. Sua mão
estendida. Sua lamentação pela vida como ela é. Sua gentileza disfarçada
de vergonha por não gostar mais de mim. A maneira que você tem de pedir
perdão por ser mais um cara que parte assim que rouba um coração. Você é
o mocinho que se desculpa pelo próprio bandido. Finjo que aceito suas
considerações mas é apenas pra ter novamente o segundo. Como o segundo
do meu nariz na sua nuca quando consigo, por um segundo, te abraçar sem
dor. O segundo do seu nome na tela do meu celular. O segundo da sua voz
do outro lado como se fosse possível começar tudo de novo e eu charmosa e
você me fazendo rir e tudo o que poderia ser. O segundo em que suspiro e
digo alô e sinto o cheiro da sua sala. Então aceito a sua enorme
consideração pequena, responsável, curta, cortante. Aceito você de
longe. Aceito suas costas indo. Aceito o último cacho virando a esquina.
O último fio preso no pé da minha cama. Não é que aceito. Quem gosta
assim não come migalhas porque é melhor do que nada, come porque as
migalhas já constituem o nó que ficou na garganta. Seus pedaços estão
colados na gosma entalada de tudo o que acabou em todas as instâncias
menos nos meus suspiros. Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o
engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor. Aceito sua consideração
de carinho no topo da minha cabeça, seu dedilhar de dedos nos meus
ombros, seu tchauzinho do bem partindo para algo que não me leva junto e
nunca mais levará, seu beijinho profundo de perdão pela falta de
profundidade. Aceito apenas porque toda a lama, toda a raiva, todo o
nojo e toda a indignação se calam para ver você passar. (Tati Bernardi)
{...}Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca." Clarice Lispector
- Bruna Araújo
- Morro do Chapéu, Bahia, Brazil
- Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Uma saudade dos mil anos que passamos, ou das três semanas. A loucura de
gostar tanto pra tão pouco ou simplesmente a loucura de tanto acabar
assim. Fora tudo o que guardei de você, me restou a consideração que
você guardou por mim. Sua ligação depois, quando me encontra. Sua mão
estendida. Sua lamentação pela vida como ela é. Sua gentileza disfarçada
de vergonha por não gostar mais de mim. A maneira que você tem de pedir
perdão por ser mais um cara que parte assim que rouba um coração. Você é
o mocinho que se desculpa pelo próprio bandido. Finjo que aceito suas
considerações mas é apenas pra ter novamente o segundo. Como o segundo
do meu nariz na sua nuca quando consigo, por um segundo, te abraçar sem
dor. O segundo do seu nome na tela do meu celular. O segundo da sua voz
do outro lado como se fosse possível começar tudo de novo e eu charmosa e
você me fazendo rir e tudo o que poderia ser. O segundo em que suspiro e
digo alô e sinto o cheiro da sua sala. Então aceito a sua enorme
consideração pequena, responsável, curta, cortante. Aceito você de
longe. Aceito suas costas indo. Aceito o último cacho virando a esquina.
O último fio preso no pé da minha cama. Não é que aceito. Quem gosta
assim não come migalhas porque é melhor do que nada, come porque as
migalhas já constituem o nó que ficou na garganta. Seus pedaços estão
colados na gosma entalada de tudo o que acabou em todas as instâncias
menos nos meus suspiros. Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o
engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor. Aceito sua consideração
de carinho no topo da minha cabeça, seu dedilhar de dedos nos meus
ombros, seu tchauzinho do bem partindo para algo que não me leva junto e
nunca mais levará, seu beijinho profundo de perdão pela falta de
profundidade. Aceito apenas porque toda a lama, toda a raiva, todo o
nojo e toda a indignação se calam para ver você passar. (Tati Bernardi)
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